Recordações Marcantes

Há cerca de 1 ano, contactei algumas das pessoas que mais me marcaram no período em que exerci o cargo de ministro perguntando se aceitavam escrever um curto testemunho com recordações sobre mim para publicar no livro que estava a escrever.

Fiquei extremamente sensibilizado com a resposta e estou muito grato.

O conjunto dos testemunhos faz parte do livro Confinado. Decidi incluir neste website 4 testemunhos que talvez tenham um significado especial pela sua carga emocional. De forma alguma tal significa que não dê a todos os testemunhos um enorme valor.

Minas de Aljustrel. A Comissão de trabalhadores, o sindicato dos mineiros e o autarca foram decisivos em resgatar um projecto responsável pelo bem estar de muitas famílias de Aljustrel. No meu gabinete, vivi com os sindicalistas momentos dignos do filme O couraçado Potenkine, mas no fim ficámos verdadeiramente amigos.

Museu dos Coches. Foi um privilegio ter conhecido Paulo Mendes da Rocha, autor do projecto do Museu dos Coches, um gigante infelizmente falecido pouco tempo depois de escrever o seu testemunho, que muito me honra. Era uma pessoa verdadeiramente notável. Não tinha escritório, trabalhava a partir de casa e criou uma excelente equipa em Portugal. O seu nome foi-me indicado por Eduardo Souto Moura. Pedro Passos Coelho teve a gentileza de me convidar para a inauguração do museu, durante a qual referiu simpaticamente a minha contribuição. Porém, nessa altura eu estava na Australia a ensinar e não pude vir a Portugal.

Autoeuropa. Pouco tempo depois de eu tomar posse, recebi no meu gabinete o engenheiro Emilio Saenz, que me comunicou a intenção de encerrar a fábrica de Palmela. Não aceitei a sua decisão (também não tinha alternativa dado o ataque de fúria de José Socrates quando lhe dei a notícia) e lancei o desafio de trabalharmos em conjunto, não só para manter a fábrica, mas também de trabalharmos com a Comissão de trabalhadores liderada por António Chora com vista a trazer um novo modelo para Portugal. Confesso que me vieram as lágrimas aos olhos no dia em que soubemos que o sonho se tinha tornado realidade. Yes, we can.

Cerâmica Bordalo Pinheiro. Pelas regras do capitalismo clássico, a cerâmica Bordalo Pinheiro já não existiria, a solução encontrada implicou congregar muitas vontades. Carlos Elias, um jovem trabalhador da empresa, em que a sua família também tinha trabalhado, teve um mérito enorme e devemos todos estar-lhe gratos.

 

Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Mineira

Foi um dia muito feliz, cheio de sorrisos e lágrimas.

Era crucial resistir!

Passados alguns, poucos, meses (seis) da reabertura da Mina, após muitos anos encerrada (desde 1993), no dia 13 de novembro de 2008, a notícia de que a Mina iria encerrar novamente cai que nem uma bomba na vila de Aljustrel, vila mineira desde a sua existência. E, mais uma vez, tal como no tempo da ditadura, é ao Sindicato que todos recorrem. E sim, o sindicato, os trabalhadores e a população sentem de novo o desespero do encerramento do grande, e praticamente único, empregador do concelho. A esperança de um futuro com melhores condições económicas para os trabalhadores e população e de desenvolvimento para o concelho desvaneceu nesse dia, como se todos estivessem “a viver de novo o mesmo filme” da década de noventa.

Nesse mesmo dia, inicia-se, novamente, um processo de luta do Sindicato, dos trabalhadores e da população. As deslocações a Lisboa da direção do Sindicato, para reuniões no Ministério da Economia em Lisboa, começaram a ser regulares, aliás, em determinada altura foram mesmo diárias. No seio do Sindicato, tinha-se a noção de que era muito importante não desistir naquele momento, de que havia que manter a mina aberta, após tantos anos de luta para voltar a ter a mina de volta à sua atividade, depois de tantos anos a lutar para ter “a mina de volta” à vila. Era crucial resistir!

Foi uma luta muito dura, dias muito difíceis, a esperança a ficar menor entre a população e os trabalhadores, até que um dia é finalmente anunciado que a mina tem nova empresa para ficar com a concessão e exploração de minério. Tal como dizemos no seio do povo Mineiro, via se luz ao fundo do Túnel. Foi um dia muito feliz, cheio de sorrisos e lágrimas. A esperança renasceu entre os trabalhadores e a população, que tinham a sua mina de volta.

Apesar da incerteza, na altura, sobre a sua viabilidade, hoje está provado que era viável, aliás continua em laboração até ao momento, garantindo muitos postos de trabalho para o concelho e concelhos vizinhos! Afinal o Sindicato, os trabalhadores e a população tinham razão…

 

18/09/2020

 

 NELSON BRITO, presidente da Câmara Municipal de Aljustrel

Ligado ao passado da nossa terra, mas principalmente a um presente de prosperidade e a um futuro que se perspetiva ainda com mais desenvolvimento

 

Manuel Pinho fica ligado ao passado da nossa terra, mas principalmente a um presente de prosperidade e a um futuro que se perspetiva ainda com mais desenvolvimento.

Recordo, com reconhecimento e estima, o papel que o ministro Manuel Pinho teve, em 2008, na viabilização da atividade mineira em Aljustrel, contribuindo, com empenho e energia, para garantir o futuro de uma atividade económica muito relevante, a nível local e regional, mas principalmente garantido a sustentabilidade de uma comunidade, a minha, que está historicamente dependente atividade mineira.

Manuel Pinho fica ligado ao passado da nossa terra, mas principalmente a um presente de prosperidade e a um futuro que se perspetiva ainda com mais desenvolvimento.

 

PAULO MENDES DA ROCHA, arquiteto, galardoado com o Prémio Prietzker em 2006

Este novo museu é extraordinário

 

É um grande privilégio poder, deste modo, lembrar para louvar a clareza da política então adotada pelo ministro Manuel Pinho.

Nos anos 2000, o ministro da Economia congelou e destinou a verba necessária para a contratação do projeto de construção do novo Museu dos Coches na extraordinária cidade de Lisboa, na zona mais proeminente para visitação turística, entre a Torre de Belém, o Mosteiro dos Jerónimos e a Praça das Índias Ocidentais!

Foi assim que fui convidado para montar o projeto e organizar uma equipa de trabalho, onde ganhei amigos para sempre – Rui Furtado, Nuno Sampaio, Back Gordon…

Este novo museu é extraordinário pela sua coleção dos coches, um tesouro peculiar e inédito, preservado e extremamente bem cuidado.

É uma grande alegria e honra lembrar e cumprimentar quem realizou tudo isso – o ministro Manuel Pinho.

 

Um forte abraço amigo e muito respeitoso.

Cumprimentos do

Paulo Mendes da Rocha

HÉLDER VIEIRA, colaborador na Volkswagen Autoeuropa desde 1994

Se foi importante para a Autoeuropa?! Eu acho que foi…

 

Entre 2005 e 2009, Manuel Pinho exerceu a função de ministro da Economia no Governo então liderado pelo Engenheiro José Sócrates. Coincidência ou não, foi neste período que se tomaram grandes decisões na Autoeuropa em relação a modelos produzidos, volume de produção e uma clara intenção de manter todos os postos de trabalho na fábrica. Em finais de 2005, já Manuel Pinho se dirigia à Alemanha para dialogar com o Presidente da VW, a fim de falar sobre a situação da falta de acordo na fábrica sobre questões salariais entre os trabalhadores e a administração.

A decisão da VW de produzir o VW Eos em Portugal foi tomada antes de Manuel Pinho como ministro da economia, o lançamento deste modelo aconteceu em 2006 e nesse mesmo ano a VW anuncia mais um lançamento na Autoeuropa, o Vw Scirocco, que teve o seu lançamento no verão de 2008. Daí para a frente, a relação entre Manuel Pinho, a Autoeuropa e os seus trabalhadores começou a ficar mais forte.

Manuel Pinho percebeu rapidamente a importância da Autoeuropa para a economia do nosso país e a partir daí tudo fez para manter a continuidade da nossa fábrica em Portugal.

Em plena crise financeira, entre 2008 e 2009, Manuel Pinho teve uma participação ativa no que diz respeito às negociações entre os trabalhadores e a administração da fábrica. Com o seu discurso positivo e de esperança cativou todos e foi muitas vezes uma espécie de intermediário nas conversações. Criou uma relação de proximidade com os trabalhadores, através do coordenador da Comissão de Trabalhadores (António Chora). A VW anuncia a vinda de mais um modelo para a Autoeuropa (Novo Sharan). Mas, mesmo com este anúncio, a vinda do novo Sharan esteve sempre em risco. Manuel Pinho deslocou-se várias vezes à Alemanha até estar garantida a produção do novo Sharan na Autoeuropa. Desde então, a fábrica tem bases para fazer frente a qualquer obstáculo… discutiu-se muito para chegar a 130.000 carros por ano, hoje fazemos 250.000 carros ano e parece fácil… Conheci Manuel Pinho em 2009 e vi na cara dele uma alegria enorme quando soube que eu era um trabalhador da Autoeuropa. Por isso, se me perguntarem se Manuel Pinho foi importante para a Autoeuropa, digo que sim… sem hesitar!

CARLOS ELIAS, porta-voz da comissão de trabalhadores das Faianças Artísticas Bordalo Pinheiro

Promessa feita, promessa cumprida!

 

Ao meu Amigo

Sou um privilegiado. E um dos primeiros privilégios foi ter conhecido alguém que encontrou a melhor solução para um problema que não era meu, nem dele, era nosso, era de todos aqueles que tinham dado o seu melhor em prol de uma empresa, afinal de um País, que teve à beira de ver fechar portas uma secular fábrica de cerâmica.

Um dia, na minha qualidade e responsabilidade de porta voz da comissão de trabalhadores das Faianças Artísticas Bordalo Pinheiro, tive oportunidade de dizer à comunicação social — hoje em dia, comunicação social numa sociedade em que cada vez mais estamos órfãos dos valores básicos – que não é fácil encontrar pessoas que desempenham ou desempenharam funções nos mais altos cargos políticos com o carisma e a humanização com que o meu amigo Manuel Pinho nos recebeu.

Tive a honra e o gosto de partilhar consigo alguns momentos.

Recordo a nossa primeira reunião, em pleno Ministério na Rua da Horta Seca no dia 21 de janeiro de 2009. Ouviu-me dizer o que sentia, a emoção quase me traiu quando lhe disse que era a quinta geração de uma família que trabalhou naquela empresa, ao mesmo tempo que vi na sua expressão facial um enorme respeito pelo que lhe dizia.

Senti naquele momento que estava na presença de um Homem sério e comprometido em contribuir positivamente para a solução.

Não me enganei. O então ministro deu a sua palavra e disse-me que iria fazer o melhor para a viabilização da empresa e para manter o emprego de todos os 172 funcionários.

Jamais se apagará na minha memória o dia 31 de março de 2009. Nesse dia, as instalações da empresa vestiram-se a rigor para receber o meu Amigo, a sua comitiva e o primeiro-ministro. Nesse dia, viria a ser anunciada a entrada ao comando da empresa do grupo Visabeira.

Promessa feita, promessa cumprida!

Outros momentos de cumplicidade se seguiram. Um lanche no seu gabinete aquando do aniversário da empresa, ou quando me honrou com um almoço na sua residência, e até no jantar da sua despedida do Governo, que os seus assessores me honraram com o convite para estar presente. Mas afinal o que pode levar um homem que no momento desempenhava funções de ministro e os seus assessores a convidarem um comum cidadão, para estes minutos de recato?

A sua humanidade.

Por estes dias, diz-se com regularidade que a vida jamais será como antes, não sei se será bem assim, há coisas que continuam, há pessoas que passaram nas nossas vidas que nunca se diluem no tempo.

Hoje a empresa labora, continua a produzir as mais belas peças da cerâmica artística e não só, e o meu amigo é o principal responsável pela viabilização da secular fábrica.

Amigo Manuel Pinho, passada uma década da nossa cruzada muito bem-sucedida, sabe muito bem poder voltar a estar consigo e manifestar-lhe a minha profunda gratidão.

 

 

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